Sônia Guajajara

“Ser mulher indígena no Brasil é viver um eterno desafio — de fazer a luta, de ocupar os espaços, de protagonizar a própria história. Historicamente, foi dito para nós que a gente não poderia ocupar determinados espaços.”

Essas são palavras ditas em entrevista ao portal Brasil de Fato pela indígena nascida no seio do povo Guajajara, população originária que vive na Terra Indígena Araribóia, situada no estado do Maranhão, no dia 6 de março de 1974. Sônia Bone de Souza Silva Santos, conhecida no cenário político e de ativismo indígena e ambiental brasileiro como Sônia Guajajara, desde cedo entendeu a necessidade de se colocar em luta pelos direitos dos povos indígenas.

Essa militância, que pode ser considerada embrionária na vida de Sônia, nasce da ânsia de trazer à luz a história e a cultura indígena, além de buscar a garantia e a preservação dos direitos de seu povo. Aos 15 anos, ela recebeu auxílio da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e foi estudar em Minas Gerais, onde concluiu o ensino médio.

Guajajara traçou carreira acadêmica nas áreas de Letras e Enfermagem. Tendo isso em vista, é possível afirmar que sua caminhada na formação acadêmica é de elementar relevância em seus itinerários de vida. Fora do chão da academia, do hospital ou da sala de aula, Sônia desempenhou — e continua desempenhando — um trabalho intenso e efetivo dentro da política indígena e indigenista. Como exemplo, é possível citar sua atuação em importantes organizações como a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), onde atuou como coordenadora executiva, a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e a COAPIMA (Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão).

Esse labor tornou Sônia força e voz dos povos indígenas e, além disso, uma das mais conhecidas ativistas da causa ambiental e das lutas contra os desdobramentos criminosos e mortais do capitalismo e das marcas coloniais. Isso e muito mais justificam os diversos prêmios conquistados por ela. Alguns exemplos dessa lista são: o Prêmio Ordem do Mérito Cultural 2015, do Ministério da Cultura, entregue pela então presidenta Dilma Rousseff; a Medalha 18 de Janeiro, concedida pelo Centro de Promoção da Cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Padre Josimo, também em 2015; e a Medalha Honra ao Mérito do Governo do Estado do Maranhão, pela grande articulação com órgãos governamentais no período das queimadas na Terra Indígena Arariboia.

O ano de 2017 entrou para a história da vida de Sônia, dos povos indígenas e do Brasil, pois foi quando ela se apresentou como candidata à vice-presidência da República Federativa do Brasil, em uma chapa com Guilherme Boulos. Candidatura essa que marcou um forte protesto contra as estruturas políticas do país, pois, pela primeira vez em mais de 500 anos, uma pessoa indígena se colocava em tal posição e poderia alcançar uma das mais altas funções da política partidária brasileira.

Embora sua vitória não tenha se consolidado, o resultado das eleições colocou o Brasil em um caminho que se opunha aos preceitos e ideais defendidos por Guajajara. Ainda assim, o resultado adverso da eleição presidencial de 2018 não representou um limite para o avanço de seus trabalhos. Sônia seguiu como coordenadora executiva da APIB e continuou tocando diversos projetos em favor das causas e das vidas indígenas, contra a exploração indevida das terras tradicionais e em defesa da pauta ambientalista.

Em 2022, Sônia Guajajara fez novamente história ao ser eleita deputada federal por São Paulo, tornando-se uma das primeiras mulheres indígenas a ocupar uma cadeira no Congresso Nacional. Pouco tempo depois, em janeiro de 2023, foi nomeada Ministra dos Povos Indígenas, tornando-se a primeira pessoa indígena a chefiar um ministério na história do Brasil — um marco sem precedentes para os povos originários e para a luta anticolonial no país.

Recentemente, ela foi classificada como uma das 100 pessoas mais influentes da América Latina, por um conjunto de organizações internacionais que compõem o grupo Latinos por la Tierra, além de figurar em listas globais de lideranças ambientais e políticas de destaque, como as da BBC e da TIME.

É possível concluir que Sônia Guajajara é, sem sombra de dúvidas, um ícone a ser admirado. Essa afirmativa parte de uma análise de sua importante, potente e necessária luta — atravessada por diversos marcadores sociais — afinal, ser mulher, nordestina e indígena nunca foi, não é e está longe de ser algo fácil no Brasil.

Sua (r)existência é bela, inspiradora e funciona como combustível para lutar contra as forças de opressão.

Referências


APIB – ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL. Biografia de Sônia Guajajara. Brasília: APIB, 2022. Disponível em: https://apiboficial.org. Acesso em: 7 out. 2025.

BBC NEWS BRASIL. Sônia Guajajara: quem é a primeira ministra indígena do Brasil. Londres: BBC News Brasil, 2 jan. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese. Acesso em: 7 out. 2025.

BRASIL DE FATO. “Ser mulher indígena no Brasil é viver um eterno desafio”, diz Sônia Guajajara. Entrevista. São Paulo: Brasil de Fato, 06 mar. 2021. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br. Acesso em: 7 out. 2025.

FOLHA DE S. PAULO. Sônia Guajajara é a primeira mulher indígena eleita deputada federal por São Paulo. São Paulo: Folha de S.Paulo, 2 out. 2022. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 7 out. 2025.

LATINOS POR LA TIERRA. Las 100 personas más influyentes de América Latina 2023. Lima: Latinos por la Tierra, 2023. Disponível em: https://latinosporlatierra.com. Acesso em: 7 out. 2025.

MINISTÉRIO DA CULTURA (MinC). Ordem do Mérito Cultural 2015: personalidades homenageadas. Brasília: MinC, 2015. Disponível em: https://www.gov.br/cultura. Acesso em: 7 out. 2025.

MINISTÉRIO DOS POVOS INDÍGENAS (MPI). Sônia Guajajara – Ministra dos Povos Indígenas do Brasil. Brasília: Governo Federal, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mpi. Acesso em: 7 out. 2025.