Pedro Poty (c. 1600–c. 1652) foi um chefe potiguara da Baía da Traição, território indígena marcado por intensas disputas coloniais no século XVII. As datas de seu nascimento e morte permanecem estimativas construídas pela historiografia, uma vez que não há registros diretos sobre esses marcos de sua vida. Primo de Antônio Felipe Camarão, que mais tarde seria celebrado como herói da monarquia portuguesa, Poty trilhou um caminho distinto. Em 1625 foi levado para a República das Províncias Unidas na esquadra de Hendrikson, onde recebeu instrução formal e aprendeu a língua neerlandesa. Esse período de formação deu-lhe ferramentas raras entre os chefes indígenas: o domínio da escrita e uma familiaridade direta com a política europeia.
De volta ao Brasil em 1631, Poty tornou-se figura central nas alianças entre indígenas e holandeses. Reconhecido como “regedor dos índios da Paraíba”, liderou tropas, negociou apoios e produziu cartas em neerlandês que ainda hoje permitem ouvir sua voz. Nelas, rejeitou os apelos de Felipe Camarão e de outros parentes que tentavam persuadi-lo a mudar de lado, afirmando com clareza a diferença que via entre portugueses e neerlandeses: estes, dizia, viviam com os indígenas como irmãos, enquanto aqueles espalhavam a escravidão.
A guerra, porém, não lhe poupou. Em 1649, após a segunda Batalha dos Guararapes, caiu prisioneiro dos portugueses. Seu destino é conhecido graças ao testemunho de Antônio Paraupaba, analisado por Lodewijk Hulsman, que descreveu os sofrimentos do companheiro: espancado, acorrentado em um buraco escuro, alimentado apenas com pão e água, Poty resistiu a anos de cárcere e à pressão para renegar sua fé calvinista. Foi levado a Lisboa, onde morreu prisioneiro depois de dois anos e meio, sem ceder à conversão forçada.
A memória de Pedro Poty sobreviveu menos em imagens do que em palavras. Ao contrário de Felipe Camarão, celebrado pela coroa portuguesa e retratado como herói vencedor, Poty permaneceu na sombra da derrota. Sua figura só aparece de modo incerto em tradições visuais posteriores: alguns estudiosos — como lembra José Fernandes de Lima (1990) — sugerem que Victor Meirelles, em sua pintura Batalha dos Guararapes (1879), teria representado Poty entre os combatentes indígenas. Trata-se, contudo, de uma leitura interpretativa e não de uma identificação documentada.
Pesquisas recentes têm destacado seu papel no Atlântico colonial. Mark Meuwese o insere na ampla rede transatlântica de alianças entre neerlandeses e povos indígenas, mostrando como sua trajetória não se restringe ao Brasil, mas faz parte de uma história de mobilidade e negociação que atravessava oceanos. Já Hulsman ilumina sua morte como exemplo da violência sofrida por indígenas que resistiram à dominação portuguesa.
A trajetória de Pedro Poty, marcada pela escrita, pela liderança militar e pela firmeza diante da tortura e do exílio, revela a complexidade da política indígena no período do “Brasil holandês”. Mais do que personagem secundário, foi voz ativa e chefe potiguara que enfrentou com dignidade os dilemas impostos pela guerra colonial.
Referências
HULSMAN, Lodewijk. Índios do Brasil na República dos Países Baixos: as representações de Antônio Paraupaba para os Estados Gerais em 1654 e 1656. Revista de História, n. 154, p. 37–69, 2006.
LIMA, José Fernandes de. A lealdade e o heroísmo do índio Potiguara Pedro Poty. João Pessoa: A União, 1990.
MEUWESE, Mark. For the Peace and Well-Being of the Country: Intercultural Mediators and Dutch–Indian Relations in New Netherland and New France, 1600–1664. Tese (Doutorado em História) – University of Notre Dame, 2003.
MEUWESE, Mark. Brothers in Arms, Partners in Trade: Dutch–Indigenous Alliances in the Atlantic World, 1595–1674. Leiden: Brill, 2012.