Antônio Paraupaba (c. 1595–1656) foi um dos mais importantes líderes potiguara do século XVII, cuja trajetória atravessou oceanos e fronteiras coloniais. Filho de Gaspar Paraupaba, nasceu na Capitania da Paraíba em meados do final do século XVI, numa época marcada por intensos confrontos entre portugueses, holandeses e povos indígenas do Nordeste. A data exata de seu nascimento não é conhecida, mas os historiadores a estimam em torno de 1595, com base em sua participação como jovem adulto na viagem para a Holanda em 1625, na qual já exercia funções diplomáticas e militares junto a seu pai e a Pedro Poty.
Essa primeira viagem para a República Holandesa marcou profundamente sua vida: aprendeu neerlandês, absorveu práticas políticas e observou o funcionamento das instituições da Companhia das Índias Ocidentais. Retornando ao Brasil em 1631, atuou como intérprete e mediador entre indígenas e holandeses, desempenhando papel central na aproximação de grupos como os Tarairiú.
Na década de 1640, Paraupaba conquistou espaço próprio na política colonial. Em 1645, durante a Assembleia Potiguara de Tapesserica, foi eleito regedor do Rio Grande e articulou, junto a Carapeba e Pieter Poty, uma remonstrância reivindicando liberdade, autonomia e dignidade para seu povo. Nesse mesmo ano, foi nomeado capitão e regedor, consolidando sua autoridade e prestígio.
Em 1649, após a segunda Batalha dos Guararapes e a captura de Pedro Poty, Paraupaba assumiu ainda mais responsabilidades entre os indígenas aliados aos holandeses, conduzindo parte de seu povo ao refúgio da Serra de Ibiapaba e mantendo viva a resistência até a derrota final da Nova Holanda em 1654.
Com o fim do domínio neerlandês, embarcou novamente para a Holanda em 1654, acompanhado da esposa Paulina e de três filhos, enquanto seu pai Gaspar optou por permanecer no Brasil, “querendo terminar a vida na selva entre sua nação”. Em Haia, Paraupaba tornou-se um porta-voz incansável: entre 1654 e 1656 apresentou remonstrâncias aos Estados Gerais, denunciando abusos, defendendo os direitos indígenas e pedindo apoio político e militar. Em outubro de 1654, escreveu uma carta ao Grande Pensionário Johan de Witt solicitando ajuda para reunir sua família, então dispersa.
Esses documentos revelam um autor indígena que transformou sua experiência em discurso político, articulando memória coletiva e diplomacia em nome de seu povo. Segundo Lodewijk Hulsman, essas representações projetaram Paraupaba como símbolo de alianças indígenas e holandesas no Atlântico. Mark Meuwese contextualiza sua trajetória dentro de uma rede transatlântica de relações políticas e familiares, mostrando como Paraupaba, Paulina e seu filho Maurício permaneceram conectados à Holanda e ao Caribe após 1654. Mais recentemente, Rafael Xucuru-Kariri, Suzane Lima Costa e Bruno Ferreira Miranda redescobriram escritos inéditos e reforçaram sua importância, resgatando Paraupaba como ator central do “Brasil Holandês”.
Sabe-se até então que Antônio Paraupaba morreu em 1656 na Holanda. Sua história, porém, sobrevive como testemunho do protagonismo indígena no Atlântico colonial — não apenas como combatente, mas como diplomata, escritor e mediador que soube falar em nome de seu povo diante das maiores potências de seu tempo.
Referências:
HULSMAN, Lodewijk. Índios do Brasil na República dos Países Baixos: as representações de Antônio Paraupaba para os Estados Gerais em 1654 e 1656. Revista de História, São Paulo, n. 154, p. 37–69, 2006. Disponível em: https://revistas.usp.br/revhistoria/article/view/19022. Acesso em: 4 set. 2025.
MEUWESE, Mark. Brothers in Arms, Partners in Trade: Dutch-Indigenous Alliances in the Atlantic World, 1595–1674.Leiden: Brill, 2012.
MIRANDA, Bruno Ferreira; XUCURU-KARIRI, Rafael Silva; COSTA, Suzane Lima. Um escrito inédito do indígena Antônio Paraupaba e o ocaso das relações Potiguara-neerlandesas (1654–1656). Revista de História, São Paulo, n. 183, p. 1–28, 2024. Disponível em: https://revistas.usp.br/revhistoria/article/view/225613. Acesso em: 4 set. 2025.