Graça Graúna é uma voz fundamental da literatura indígena contemporânea no Brasil, cuja trajetória combina criação poética, pesquisa acadêmica e tradução. Potiguara do Rio Grande do Norte, ela construiu sua carreira em meio urbano, mantendo estreitos vínculos com suas raízes e com as cosmovisões ameríndias. Sua obra reflete a complexidade da experiência indígena, articulando memória, cultura e identidade, e reafirma a presença e a relevância dos povos originários no panorama literário e intelectual do país.
Nascida em 1948, na cidade de São José do Campestre, a 64 km da Aldeia Catu, Graça mudou-se para Recife aos dez anos com sua mãe costureira, seu pai pescador e seus cinco irmãos. Desde então, reside na capital pernambucana. Sua produção literária e crítica é referência na reapropriação das cosmovisões ameríndias, buscando uma reterritorialização simbólica da cultura indígena. Graúna iniciou sua trajetória acadêmica no Colégio das Neves, em Natal, onde, aos 15 anos, passou a escrever em um diário que compartilhava com poucas colegas do internato. Essas colegas observaram que ela escrevia “poesia misturada com história”, percepção que a autora reconheceu como uma necessidade de colocar sua “intuição” no papel.
Formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Graça Graúna concluiu seu mestrado em 1991 com a dissertação O imaginário dos povos indígenas na literatura infantil. Em 2003, obteve o doutorado em Letras pela mesma instituição com a tese Literatura Indígena Contemporânea no Brasil, marco fundamental para a produção crítica sobre a literatura indígena brasileira. Além disso, possui pós-doutorado em Literatura, Educação e Direitos Indígenas pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
Entre suas obras publicadas estão os livros de poesia Canto Mestizo (1999), Tessituras da Terra (2000), Tear da Palavra(2001), Flor da Mata (2014) e Fios do Tempo (2021). Em prosa, destaca-se Criaturas de Ñanderu (2010), voltado ao público infantojuvenil. Em 2013, traduziu para a Editora FTD três livros de contos indígenas da América Latina: O Coelho e a Raposa (povo Kiliwa), O Sapo e o Deus da Chuva (povo Yaqui) e Baak (povo Maia). Sua produção também inclui crônicas, ensaios e traduções, além de participação em antologias literárias no Brasil e no exterior.
Atualmente, Graça Graúna é professora adjunta na Universidade de Pernambuco (UPE), onde atua nos cursos de Letras e Licenciatura em Ciências Sociais. É coordenadora do Grupo de Estudos Comparados: Literatura e Interdisciplinaridade (GRUPEC-UPE) e desenvolve pesquisas nas áreas de literatura e direitos humanos, literatura e cultura indígena, e poesia brasileira. Sua colaboração se estende a revistas e jornais como Arte e Palavra (Sergipe), Suplemento Literário do Minas(Belo Horizonte) e Jornal de Letras (Lisboa), onde comenta a literatura sob a perspectiva indígena.
A trajetória de Graúna demonstra a potência da literatura indígena na preservação cultural, no resgate de memórias e na ampliação do debate sobre direitos humanos e identidade. Por meio de sua produção literária, acadêmica e de tradução, Graúna não apenas afirma a presença indígena no campo literário brasileiro, mas também contribui para a visibilidade das cosmovisões ameríndias e para a construção de um diálogo crítico com a sociedade contemporânea. Sua obra é, portanto, um elo entre tradição e inovação, poesia e crítica, memória e resistência, consolidando-a como uma referência indispensável na literatura e no pensamento indígena no Brasil.
Referências
GRAÚNA, Graça. Canto Mestizo. Rio de Janeiro: Blocos, 1999.
GRAÚNA, Graça. Tessituras da Terra. Belo Horizonte: Mulheres Emergentes, 2000.
GRAÚNA, Graça. Tear da Palavra. Belo Horizonte: M.E, 2001.
GRAÚNA, Graça. Criaturas de Ñanderu. Barueri: Manole, 2010.
GRAÚNA, Graça. Contrapontos da Literatura Indígena Contemporânea no Brasil. São Paulo: Mazza Edições, 2013.
GRAÚNA, Graça. Flor da Mata. Belo Horizonte: Peninha Edições, 2014.
GRAÚNA, Graça. Fios do Tempo. Belo Horizonte: Peninha Edições, 2021.
GRAÚNA, Graça. O Coelho e a Raposa. São Paulo: FTD, 2013.
GRAÚNA, Graça. O Sapo e o Deus da Chuva. São Paulo: FTD, 2013.
GRAÚNA, Graça. Baak. São Paulo: FTD, 2013.
GRAÚNA, Graça. “Entrevista com Graça Graúna”. Diadorim, 14 abr. 2023. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/diadorim/article/view/50394. Acesso em: 7 out. 2025.
GRAÚNA, Graça. “Graça Graúna: ‘Ao escrever, dou conta da ancestralidade, do caminho de volta, do meu lugar no mundo'”. Tribuna de Minas, 6 ago. 2019. Disponível em: https://tribunademinas.com.br/colunas/sala-de-leitura/06-08-2019/graca-grauna-ao-escrever-dou-conta-da-ancestralidade-do-caminho-de-volta-do-meu-lugar-no-mundo.html. Acesso em: 7 out. 2025.