Boa Vista – Roraima, 03 de abril de 2005.

Das Mulheres Indígenas para o Presidente Lula

Excelentíssimo Sr.

Luiz Inácio Lula da Silva

Presidente da República

Excelentíssimo Sr.:

Dr. Márcio Thomaz Bastos

Ministro de estado da Justiça

Excelentíssimo Sr.

  1. Nilmário Miranda

Ministro da Secretaria do Estado de Direitos Humanos

Excelentíssimo Sr.:

Mércio Pereira Gomes

Presidente da Funai

Excelentíssimos Senhores e demais autoridades,

Nós, mulheres indígenas do Estado de Roraima presente na I Reunião Ampliada de 2005 promovida da Organização das Mulheres Indígenas de Roraima – OMIR, realizada nos dias 2 e 3 de abril de 2005, no auditório do Conselho Indígena de Roraima – CIR, queremos nos manifestar na forma abaixo:

Como mulheres, mães, filhas, esposas, irmãs, geradoras de vida e parte de uma comunidade indígena, sentimos também o sofrimento que nosso povo vem passando com a demora da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Apresentamos nossa indignação com o descaso que nossa vida vem sendo tratada, tanto que após toda violência e destruição praticada contra as comunidades Jawari, Homologação e Brilho do Sol, e, aos retiros Tai Tai e Inskirang, ocorridas em 23 novembro de 2004, conforme nossa denuncia em anexo, até hoje, ninguém foi responsabilizado pelos crimes.

Relembramos com bastante temor esses momentos de torturas praticadas por rizicultores-invasores, grileiros, que continuam explorando e destruindo o meio ambiente em nossas terras, e atentam covardemente contra mulheres e crianças indígenas. Chega denuncia nesta ampliada, que o arrozeiro IVALCIR CENTENARO está terminando de cercar com estacas e arme farpado a C.I. Jawari e ameaça constantemente que após isso, irá colocar todos da comunidade para fora do cercado. Esta denuncia é mais grave haja vista que já houve destruição daquela comunidade.

Essa situação de insegurança de termos nossas vidas destruídas e o motivo principal é que não conclusão do procedimento demarcatório da TI Raposa Serra do Sol conforme já foi demarcada pela Portaria 820/98 do Ministério da Justiça.  O que deixa para os grileiros a possibilidade de invasão e exploração.

Vemos com muita preocupação as ameaças aos nossos direitos constitucionais. A PEC 38/99 do Sem. Mozarildo Cavalcanti tenta restringir as demarcações de terras indígenas e as Unidades de Conservação em todo Brasil. Negar e restringir direitos indígenas é por em risco além da diversidade cultural, nossa própria vida.

Nós, mulheres indígenas, reforçamos o “Manifesto de Abril”, lançado por ocasião do “Abril Indígena”: O governo Lula não implementa sua proposta e programa divulgados em sua campanha eleitoral e vem decepcionando os povos indígenas, deixando que setores do agro-negócio avancem sobre os nossos direitos. O que vimos é o suporte que é dado a setores publicamente contrários aos direitos indígenas, no âmbito do governo federal, venha a propor e discutir políticas indigenistas. Somado a isso, vemos que somente o Legislativo e o Judiciário vêm interpretando e decidindo conforme seu convencimento.

É preciso implementar a Constituição Federal, a Convenção 169 da OIT e respeitar no sentido de reconhecer a plurietnicidade do Brasil para que não ocorra mais genocídios dos povos indígenas.

Assim, queremos deixar claro que NOSSOS DIREITOS À TERRA NÃO SÃO NEGOCIÁVEIS, não cabe a qualquer governo negociar o direito de nenhum povo indígena. DIREITOS SÃO PARA SEREM RESPEITADOS E CUMPRIDOS. Por isso cumpra-se a Lei e HOMOLOGUE A TI RAPOSA SERRA DO SOL JÁ, conforme sua demarcação pela Portaria 820/98-MJ.

Nós mulheres indígenas aguardamos que Vossas Excelências lembrem-se o quanto nós, povos indígenas, e nossas terras somos importantes para o país. Para sermos um Brasil melhor então, é preciso começar a aceitar e respeitar nossos direitos.

CARTA DA ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES INDÍGENA DE RORAIMA – OMIR NA I REUNIÃO AMPLIADA DE 2005

Fonte: https://cimi.org.br/2005/04/23354/

NOTA EXPLICATIVA SOBRE A FONTE:

O primeiro levantamento das cartas escritas por povos indígenas, referentes ao período entre 2000 e 2007, foi realizado em 2013. Na ocasião, os documentos estavam disponíveis em sites de organizações indígenas, blogs e outras plataformas digitais mantidas por grupos indígenas. Entretanto, muitos desses domínios deixaram de existir. Atualmente, o único acesso digital consolidado a esses documentos é por meio do sítio Cartas dos Povos Indígenas ao Brasil. Cabe destacar que, especialmente para os anos de 2000 e 2001, algumas fontes originais não puderam ser recuperadas.

SOBRE ESTA CARTA:

A publicação preserva a autoria e a fonte de origem do documento, sempre que essas informações estão disponíveis.
Caso algum autor, comunidade, organização ou titular de direitos deseje solicitar atualização, correção ou remoção de conteúdo, pedimos que entre em contato pelo e-mail cartasindigenas@gmail.com. As solicitações serão analisadas com atenção.

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