O Outro Lado da História
Conversando com os índios do acampamento de Porto Cambira, hoje 13/04/2006, tive a versão deles sobre o acontecimento da morte de dois policiais na semana retrasada. Como eu já imaginava quem começou o confronto foram os próprios policiais que chegaram na área indígena de calção e chinelo num carro sem nenhuma identificação. Não se identificaram como policiais e começaram a procurar o líder do acampamento Carlito de Oliveira , que teria ido ao rio Dourados pescar e tomar banho, já que o lugar onde vivem fica na beira do rio. Como não encontraram o líder, os policiais começaram a atirar para intimidar a comunidade, e um desses tiros atingiu o pé de um rapaz de 16 anos que está preso na Penitênciaria Harry Amorim Costa em Dourados – e isso não foi divulgado pela imprensa.
Depois que os policiais atiraram para todos os lados e acertaram o rapaz e também alguns animais, estes policiais foram para a ponte do rio e chegaram em uma chácara perguntando por uma fazenda que se chamaria “Aldeia Velha”, eles até falaram que o homem da chácara pode confirmar. Como não encontraram a tal fazenda voltaram atirando “por cima” do acampamento, então os indígenas cercaram os policiais – e não foram fechar a estrada com paus e pedras como foi divulgado na imprensa – somente acenaram para os policiais para perguntar o porquê que estavam atirando e assustando a comunidade. Então, os policiais, pararam o carro e começaram a xingar e a ofender os índios. Os índios, ao se defenderem, entraram em uma luta corporal com os policiais e assim, durante essa luta, um dos policiais atirou acertando o próprio companheiro. O policial que atirou ficou indignado e continuou agredindo um dos índios enquanto o terceiro policial que é o sobrevivente o ajudava ,assim, em defesa, os indígenas, com uma faca, atingiram um dos policiais.
Mas, tudo começou para defender a área indígena onde vivem, e quem começou tudo foram os próprios policiais. Um dos policiais foi atingido na cabeça e ficou desacordado, e não estava fingindo-se de morto como também saiu na imprensa.
Depois de tudo o que aconteceu, os policiais federais ao investigar o caso no acampamento agrediram crianças e mulheres, roubaram celulares dos índios, pegaram de uma mulher dois diamantes que ela teria ganho no Paraguay, e ainda derramaram comida no chão das casas e obrigaram os índios a confessar o crime através de surras e ameaças. Os policiais enganaram os índios dizendo que os levariam somente para dar depoimento e já os prenderam. Com o rapaz que levou o tiro disseram que o levariam para o médico e quando saíram do acampamento deram voz de prisão a ele e o algemaram.
Agora, como fica essa situação? Vai ficar como se os índios fossem os únicos culpados? Tudo bem que eles erraram, mas e os policiais que chegaram atirando e ofendendo os índios, vão sair como heróis?
Micheli Alves Machado, 20 anos – Kaiowá
Fonte: https://cimi.org.br/2006/04/24790/
https://jovensindigenas.org.br
NOTA EXPLICATIVA SOBRE A FONTE:
O primeiro levantamento das cartas escritas por povos indígenas, referentes ao período entre 2000 e 2007, foi realizado em 2013. Na ocasião, os documentos estavam disponíveis em sites de organizações indígenas, blogs e outras plataformas digitais mantidas por grupos indígenas. Entretanto, muitos desses domínios deixaram de existir. Atualmente, o único acesso digital consolidado a esses documentos é por meio do sítio Cartas dos Povos Indígenas ao Brasil. Cabe destacar que, especialmente para os anos de 2000 e 2001, algumas fontes originais não puderam ser recuperadas.
SOBRE ESTA CARTA:
A publicação preserva a autoria e a fonte de origem do documento, sempre que essas informações estão disponíveis.
Caso algum autor, comunidade, organização ou titular de direitos deseje solicitar atualização, correção ou remoção de conteúdo, pedimos que entre em contato pelo e-mail cartasindigenas@gmail.com. As solicitações serão analisadas com atenção.