Carta dos Corpos-Territórios da IV Marcha das Mulheres Indígenas:
Por nossos corpos e territórios, curamos a terra!
Nós, 5.000 mulheres indígenas de mais de 100 diferentes Povos, representando todas as regiões e Biomas do Brasil, reunidas em Brasília (DF), entre os dias 03 e 07 de agosto de 2025, concebemos coletivamente esse grande encontro marcado pela realização da 1ª Conferência Nacional de Mulheres Indígenas e pela IV Marcha das Mulheres Indígenas, e reafirmamos ao mundo que estamos em permanente processo de luta em defesa dos nossos Corpos-Territórios. Nosso corpo é território! Somos as guardiãs do planeta pela cura da terra!
Irmãs, mulheres originárias de todos os cantos deste país, com o coração pleno de alegria, honra e compromisso, mulheres-terra, mulheres-raiz, mulheres-água, mulheres-semente, estamos escrevendo mais um capítulo da nossa história coletiva de resistência e esperança. Durante o nosso encontro, ocupamos esse território, um espaço ancestral e político na capital do país, para mais uma vez, fazer com que nossas palavras ecoem como cantos de luta, de cura e de renascimento. Marchamos! E marcharemos novamente, porque seguimos vivas. Seguimos com os pés na terra e os olhos no futuro, reafirmando que nosso corpo é território sagrado — e quando tocam em nós, tocam em toda a Mãe Terra. Somos as vozes das que nos antecederam e das que ancestralizaram em lutas.
Somos a força de séculos de silenciamentos rompidos. Somos sementes que germinam mesmo em tempos mais difíceis. Somos a ancestralidade viva que pulsa em cada passo que foi dado nessa marcha.
Enquanto mulheres, lideranças e guerreiras, geradoras e protetoras da vida, iremos nos posicionar e lutar contra as violações que afrontam nossos corpos, nossos espíritos, nossos territórios. Difundindo nossas sementes, nossos rituais, nossa língua, nós iremos garantir a nossa existência.
Estamos mobilizadas para fazer um permanente enfrentamento às violências, para lutar pelos direitos territoriais, por justiça climática, pelo reconhecimento do nosso corpo como território, e para garantir o lugar da mulher indígena nos espaços de poder.
Nossos passos seguem o caminho do direito a ter nossos territórios protegidos, que é também o direito de ter nossos corpos protegidos. Mais que isso, o direito de ter nossos espíritos protegidos. Nós vamos manter vivos os nossos corpos, os nossos espíritos e as nossas culturas. E isso vai se dar pela proteção dos nossos territórios.
A terra é mais do que simplesmente o lugar onde vivemos. Ela é sagrada, é capaz de fazer germinar e de acolher plantas, animais e uma infinidade de seres vivos, além dos humanos, compondo assim ambientes onde a vida frutifica em sua plenitude. A terra é a base do Bem Viver. E nosso Bem Viver pode orientar escolhas futuras de nossas autoridades e assegurar a existência de toda a humanidade. O Bem-Viver precisa ser pensado para todos, por isso combatemos as injustiças, os privilégios e todos os mecanismos que geram a desigualdade e a degradação dos territórios. Combatemos o modelo de desenvolvimento que considera a terra e a natureza apenas como um insumo para a produção de mercadorias e o consumo. Nossa luta é por um mundo onde todos possam viver em paz, segurança e saúde.
Nosso grito é por justiça climática! Somos quem mais protege o planeta com nossos modos tradicionais de relação com nossos territórios. E apesar disso, somos quem mais sofre os impactos das mudanças climáticas.
Há muito tempo, nós escutamos todos os dias o pedido de socorro de nossa Mãe-Terra. É o que chamam de emergência climática. Nossos rios estão secando, nossos peixes estão desaparecendo, nossas roças não estão mais brotando com facilidade, o curso das águas, os animais, as folhas, as frutas mudaram seu comportamento. Nós vemos a ganância, o uso da vida voltado para o lucro. Isso precisa parar! Será que os brancos esqueceram que também são água, que são terra?
Essa degradação intensa dos biomas que está em curso, seja pelo desmatamento, pela expansão do agronegócio, pelo uso de venenos para a produção, pela mineração e garimpo ilegal, seja pela exploração de petróleo, por projetos de infraestrutura, hidrelétricas, rodovias, portos, ferrovias, atenta expressamente contra a vida. Contra as nossas vidas, contra a vida humana e contra toda forma de vida do Planeta. Nós, ao contrário, somos a expressão da vida. Guardiãs do Planeta pela cura da terra.
Nossas vozes ressoam bem alto mais uma vez. Pela demarcação das terras indígenas, contra o marco temporal, pelo veto do PL da Devastação, pela implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de terras indígenas – PNGATI, contra a mineração em terra indígena, em favor da Convenção 169, pela obrigatoriedade de realização da consulta livre, prévia e informada.
Para que possamos prosseguir nessa luta de cura da terra, precisamos assegurar nossa vida e manter nossa integridade física, cultural, espiritual e mental. Somos coletivamente feridas toda vez que tomamos conhecimento de uma denúncia sobre violências brutais contra mulheres e meninas indígenas. Nós precisamos mudar este cenário. Não aceitamos que esse cenário seja naturalizado. Nós vamos implementar estratégias de enfrentamento a estes crimes. Para isso, precisamos de políticas públicas adequadas e de pleno justiça para cada uma de nós. Exigimos que o Estado brasileiro esteja preparado para nossos chamados, compreendendo nossas culturas e nos recebendo de maneira digna quando fazemos nossas denúncias. Precisamos estabelecer alianças que cooperem com a ANMIGA na implementação de processos informativos sobre nossos direitos e sobre onde buscar ajuda diante de um caso de violência de gênero. Seja violência física, sexual, patrimonial, política e tantas outras.
Por tudo isso, nos mantemos firmes nesse movimento de Reflorestarmentes. Sustentamos esse grande chamado para que todos os povos do mundo se unam em diálogos, propostas e ações voltadas à construção de uma nova forma possível de nos relacionarmos com a Mãe Terra, e também entre nós, seres que nela vivemos. Essa reconexão com a Mãe Terra é a única forma de mantermos a vida e o bem-viver.
Por isso convocamos a todas e todos a construir juntos um trajeto de vida e reconstrução, por meio do encontro entre os povos, do cuidado coletivo com nossa Terra, da cooperação positiva de saberes. Corpo é terra, floresta é mente. Queremos reflorestar as mentes para que elas se somem para prover os cuidados tão necessários com nosso corpo-terra.
O objetivo é organizar e disponibilizar conhecimentos e tecnologias ancestrais desenvolvidos e preservados por nós, mulheres indígenas, a todas e todos que compartilham conosco a preocupação com nossas vidas, com nossa terra, com nosso futuro.
Além disso, vamos seguir ocupando a política pela Bancada do Cocar. Temos um papel significativo na ocupação dos espaços de representação política pela Bancada do Cocar. Precisamos lembrar que, desde a Constituição Federal de 1988, apenas 03 indígenas ocuparam cadeiras na mais alta Casa do Parlamento do país: o Congresso Nacional. E foram 03 mulheres. Seguimos construindo e fortalecendo a Bancada do Cocar e vamos alcançar um aumento expressivo do número de indígenas candidatas e eleitas para ocupar cargos públicos em todo o país.
Somos guardiãs do planeta pela cura da terra. Nosso corpo é território. É terra, é água, é semente. E pela força do que somos, vamos transformar o mundo. Estamos em Marcha e caminharemos sempre pelo bem-viver!