Comunidade Kawani, Terra Indígena Yanomami - Setembro de 2025

Do XVI Encontro das Mulheres Yanomami para autoridades não indígenas e governos

Nós, mulheres Yanomami, nos reunimos na comunidade de Kawani para participarmos do XVI Encontro das Mulheres Yanomami. Preparamos este documento, pois queremos que vocês, autoridades não indígenas e governos, escutem nossas palavras e nos levem a sério. Já que estivemos reunidas, vamos fazer aparecer nossas palavras neste documento.

Proteção territorial

Primeiro, queremos dizer para vocês, autoridades não indígenas, que parem de falar sempre sobre aquilo que vocês chamam de mineração, que parem de mexer com essas palavras sobre “mineração em terras indígenas”, pois não vamos deixar que vocês se aproximem de nossas terras, não aceitamos a mineração na floresta onde vivemos e queremos que vocês desistam disso.

Nós não aceitamos que entrem os grandes maquinários em nossas terras, não aceitamos que destruam a floresta onde vivemos. Nós estamos aqui reunidas defendo-a, segurando nosso território contra aqueles que o estragam. A mineração carrega as marcas da aridez, pois seca totalmente o solo, faz grandes buracos na terra-floresta e ali nada mais volta a brotar. Nos primeiros tempos, Omama, nosso criador, fez essa terra para vivermos. Por isso, os não indígenas não podem ficar dizendo que a nossa terra é deles. Vocês, brancos, já vivem em outras terras, a terra de vocês já é outra e, portanto, não queiram possuir o nome de nossa terra como se fosse de vocês.

Vimos imagens de mineração durante nosso encontro e algumas de nós não conseguimos dormir, pois ficamos muito preocupadas, e pensamos: “Hoo… por que os não indígenas querem fazer esta coisa assustadora com a floresta? Por que fazem isto?” Temos medo da mineração e ela nos preocupa. Quando nosso coração fica muito triste, não conseguimos dormir bem, pois sentimos medo.

Nós, mulheres, pensamos em nossos filhos com preocupação: “como eles irão ficar? Se a mineração chegar aqui, o que vai acontecer conosco? Onde nossos filhos irão poder dormir bem? Por que as pessoas procuram minérios em nossa terra?”. Não aceitamos mineração na Terra Indígena Yanomami, pois não queremos que façam sofrer nossos filhos, não aceitamos que o projeto de mineração seja aprovado.

Nós, mulheres Yanomami, queremos também dizer para vocês que não aceitamos garimpo na Terra Indígena Yanomami. Os garimpeiros sujam nossas águas, as tornam barrentas, afastam as caças. Ficamos preocupadas com nossos filhos, pois não queremos que eles sofram, que bebam águas contaminadas e nem que as crianças morram, por isso não queremos que os garimpeiros entrem em nossas terras.

Não queremos que nosso povo sofra, estamos muito preocupadas e por isso estamos falando, pois o garimpo só traz sofrimento para nossas comunidades. Queremos ver nossas crianças saudáveis, sem lama, que possam comer peixes que não estejam contaminados.

Ficamos pensando que, se os garimpeiros entrarem nas terras onde vivemos, será que irão destruir nossa floresta? Será que irão abusar de nossas filhas? Os homens gostam de explorar sexualmente nossas meninas e não aceitamos isto. Não queremos mais sofrer, por isso vamos ficar atentos, não queremos que destruam a floresta ou que nossas crianças adoeçam, por isso não aceitamos garimpo nem mineração em nossas terras. Vocês, não indígenas, têm os rastros da sujeira, portanto, não se aproximem de nossa floresta sem razão.

Saúde da mulher

Durante nossa reunião ouvimos sobre o projeto Linha de Cuidado do Câncer de Colo de Útero para as mulheres Yanomami e Ye’kwana. Ficamos muito preocupadas com esta doença que existe em nossa terra, pois está fazendo muitas mulheres sofrerem. Por isso, queremos que o projeto cuide das mulheres Yanomami de todas as regiões da Terra Indígena Yanomami. Estamos muito preocupadas com as palavras sobre estas doenças que podem atingir as mulheres. Temos muitas filhas, sobrinhas e netas, por isso ficamos preocupadas, queremos que todas sejam examinadas.

Não queremos apenas ouvir sobre o câncer de colo de útero sem razão, somente para ficarmos preocupadas com a nossa saúde, pois em muitas regiões não estão examinando nossas vaginas para procurar esta doença. Não adianta apenas vermos as imagens sobre doenças que podem existir dentro de nossas vaginas, sem termos meios para sermos examinadas e tratadas. Dessa forma apenas ficaremos preocupadas, por isso queremos que este projeto esteja presente em todas as regiões da Terra Indígena Yanomami. Não queremos que nos façam sofrer à toa e nem que nos façam esperar para fazer este exame.

Estamos preocupadas também porque em algumas regiões estão fazendo o exame do câncer de colo do útero, mas não recebemos os resultados dos exames que foram feitos, por isso queremos ouvir os resultados para sabermos se estamos com saúde. Estamos preocupadas também porque em alguns postos de saúde está faltando material para a equipe de saúde fazer o exame PCCU.

Nós, mulheres, estamos fazendo exames em algumas regiões, mas os homens não fazem exames, por isso não sabemos se eles estão nos transmitindo doenças. Se os homens não fizerem exames, não saberemos como está a saúde deles, por isso queremos que cuidem também da saúde dos homens, fazendo exames de Infecção Sexualmente Transmissível (IST) e exames de próstata nos homens mais velhos.

Outro assunto que nós, mulheres lideranças, discutimos, é que queremos que sejam contratadas Agentes Indígenas de Saúde mulheres. Pois queremos que o pré-natal seja bem feito, com ajuda de AISs mulheres. Entre nós, Yanomami, não deixamos que os homens assistam ao nosso parto, pois nos sentimos constrangidas. Por isso, se tiverem AIS mulheres para acompanhar os exames ginecológicos e para podermos falar sobre gestação, o pré-natal e parto, é o que queremos. E também as nossas mulheres mais velhas não entendem português, por isso queremos que tenham AISs mulheres para acompanhá-las nos exames ginecológicos e ajudarem a traduzir. Queremos que aconteça dessa forma, por isso estamos pedindo que sejam contratadas AIS mulheres em todas as regiões da TIY.

Proteção Social

Hoje algumas de nós recebemos Bolsa Família. Quando vamos até a cidade de Barcelos para receber o benefício e fazer compras, nós, mulheres Yanomami, sofremos, sentimos medo.

Não existe um lugar seguro para dormirmos em Barcelos, ficamos acampadas em uma ilha com nossos filhos. No período da chuva essa ilha alaga e às vezes dormimos por cima das águas, nossos filhos adoecem com frequência. Além disso, não existe segurança para nós no Município de Barcelos, temos medo de sofrer violência. Faz muito tempo que estamos sofrendo quando vamos à cidade, por isso queremos que seja feita uma casa de passagem em Barcelos, para que possamos dormir com segurança. Queremos que nesta casa tenha um espaço separado para as mulheres, para podermos dormir em segurança quando tivermos que ir para a cidade.

Quando vamos para Barcelos não temos assistência à saúde, por isso todos nós sofremos muito, mas são as crianças que sofrem mais ainda, pois ficam sempre doentes e às vezes quase morrem, mas quem está atento a isso? Queremos que tenha assistência do DSEI Yanomami em Barcelos. Queremos também beber água limpa na cidade, pois hoje água que bebemos em Barcelos é suja de lama e contaminada, por isso também nossas crianças sofrem sempre com diarreia e outras doenças.

Queremos também que os comerciantes sejam proibidos de venderem bebidas alcoólicas para os Yanomami. Pois nossos filhos compram bebidas, ficam alcoolizados e não gostamos, pois às vezes ficam deitados pelo chão na cidade, correm riscos e causam problemas. Alguns comerciantes trocam bebidas alcoólicas pelos celulares de nossos filhos, eles são enganados pelos comerciantes.

Nós, mulheres Yanomami, em busca de nosso bem viver, reivindicamos juntas os nossos direitos:

Proteção Territorial:

1. Queremos que o projeto de Lei que permite a regulamentação de mineração em Terras Indígenas não seja aprovado.

2. Queremos a retirada dos garimpeiros de toda a Terra Indígena Yanomami.

Saúde:

3. Queremos que seja expandido o projeto “Construindo a Linha de Cuidado do CCU do DSEI YY”, para todas as regiões da Terra Indígena Yanomami. Atualmente o Projeto é desenvolvido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) por meio de Transferência Executiva Descentralizada (TED) da Funai, visando fortalecer as ações de prevenção e diagnóstico precoce das lesões precursoras do CCU. O projeto está previsto para acontecer em algumas regiões da TIY como Maturacá, Auaris, Inambu, Maia, Waikas e Ericó. Precisamos que seja feito em todas as regiões da Terra Indígena Yanomami.

4. Queremos que o projeto “Construindo a Linha de Cuidado do CCU do DSEI YY” PCCU do Projeto Xingu/Universidade Federal de São Paulo, continue atuando em parceria com o DSEI para seguir capacitando os profissionais de saúde do DSEI, que é responsável pelo atendimento dos Yanomami. Por isso a saúde da mulher deve ser prioridade e estar bem instituída dentro do DSEI Yanomami com profissionais qualificados pela Unifesp.

5. Estruturar o programa de saúde da mulher no DSEI – Yanomami e Ye’kwana, com enfermeiras e técnicas capacitadas em Saúde da Mulher para atuar na CASAI e nos polos mais populosos que apresentem indicadores de saúde materno-infantil ruins.

6. Queremos contratação e formação de Agentes Indígenas de Saúde mulher, para poderem auxiliar de forma respeitosa as mulheres Yanomami durante o exame pré-natal, exames de PCCU e outros exames ginecológicos.

7. A saúde dos homens também deve ser estruturada, com rastreamento de ISTs entre os homens e exame de próstata para os homens mais velhos.

Proteção social:

8. Deve ser estabelecido um cronograma de descida para a cidade para retirada dos benefícios sociais e aposentadoria organizado por comunidade junto à Frente de Proteção Etnoambiental da FUNAI.

9. Queremos que seja contratado e formado intérpretes Yanomami na cidade para auxiliar os Yanomami para fazer documentação, acessar benefícios e auxiliar compras.

10. A Prefeitura de Barcelos deve construir uma casa de passagem para os Yanomami (com o recurso do crédito extraordinário do Ministério destinado aos Yanomami).

11. A casa de passagem deve ter boas condições de alojamento, com banheiros, quartos ventilados, cozinha e um espaço seguro para as mulheres que vão para Barcelos sem os maridos.

12. Queremos que o DSEI – Yanomami tenha uma equipe para realizar atendimento de saúde em Barcelos.

13. Queremos que os comerciantes parem de vender bebida alcoólica escondida para os Yanomami e parem de enganar nossos filhos.

14. Queremos que seja feita uma reunião com a Prefeitura de Barcelos para pactuar o recurso destinado à estruturação do município para proteção social.

Assinam a carta:

1. Samira – Poporimapi (Koherepi)
2. Jani – Koherepi
3. Lina – Palawauu
4. Edina – Witopi (Koherepi)
5. Sotoma – Naraxipi (Koherepi)
6. Tami – Manakapi (Koherepi)
7. Vanessa – Ixaropi (Koherepi)
8. Querida – Ixaropi (Koherepi)
9. Marita – Ixaropi (Koherepi)
10. Lena – Maxapapi
11. Sara – Xoxomohi
12. Preta – Maxapapi
13. Xotomoa – Etewexipi
14. Kokota – Etewexipi
15. Mericami – Manakapiwei
16. Lorena – Xihopi
17. Maria – Xihopi
18. Lisa – Xihopi
19. Suzana Maxari Yanomami – Ixawari
20. Madalena – Xihopi
21. Tatiana – Patauazal
22. Sanara – Maxocapiu
23. Elena – Oemapiwei
24. Ângela – Yawanapewei
25. Nair – Ajuricaba
26. Luciana – Hemarepiwei
27. Marlene – Hemare
28. Eliane – Katanapiwei
29. Sandra – Katanapiwei
30. Jessica – Hauiapiwei
31. Karina – Xamani
32. Maíra – Xamani
33. Nadir – Koiopi
34. Mary – Xamani
35. Lia – Koiopi
36. Sisi – Pedral
37. Lourdes – Xerepiwei
38. Anita – Terra Alta
39. Alice – Komixi
40. Auxiliadora – Pahapuwei
41. Marli – Asa Branca
42. Dalila Hojorina – Maracanã
43. Larissa – Xiro Xiro
44. Sandra – Amahikɨ
45. Mariazinha – Rokoari
46. Ariete – Mauxiú
47. Chiquinha – Surubim
48. Tamara – Rokoari
49. Loreta – Mauxiú
50. Laura – Konapi (pesquisadora, comunicadora)
51. Fátima Larima – Watoriki
52. Suzana – Buritis
53. Joseane Waiteri – Ponte Quebrada
54. Katia – Watoriki
55. Aida – Ponte Quebrada
56. Ehuana Yaira – Watoriki
57. Evelin – Sitiparapi (Arapuá)
58. Roserita – Kawani
59. Dailane – Arapuanã
60. Rupe – Arapuanã
61. Edinelsa – Arapuanã
62. Valentina – Arapuanã
63. Michela – Kawani
64. Rosinete – Kawani
65. Naiara – Kawani
66. Lili – Kawani
67. Ilma – Kawani

Fonte: https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/Carta%20XVI%20Encontro%20das%20Mulheres%20Yanomami%202025.pdf

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